Será que precisamos realmente de possuir um espaço para construir um negócio de sucesso? Ou estaremos, por vezes, a pagar demasiado pela sensação de que algo nos pertence?
Há uma expressão que ouvimos frequentemente, quase sem nos apercebermos do peso que transporta.
«O meu gabinete.»
«A minha secretária.»
«A minha cadeira.»
«As minhas coisas.»
Existe algo profundamente humano nesta necessidade de pertença. Gostamos de ter um lugar que reconhecemos como nosso, onde deixamos os nossos objetos, organizamos o nosso espaço e sentimos que temos controlo sobre aquilo que nos rodeia.
E não há nada de errado nisso.
O problema começa quando o sentimento de posse passa a ter mais influência nas nossas decisões do que a estratégia, a racionalidade e a sustentabilidade financeira.
Quando o conforto emocional se transforma num custo empresarial
Ao longo da minha experiência na gestão e no empreendedorismo, tenho observado como algumas decisões aparentemente racionais são, na verdade, fortemente influenciadas pelas nossas emoções.
A necessidade de segurança, estabilidade, reconhecimento ou pertença pode levar-nos a assumir compromissos financeiros que nem sempre correspondem às necessidades reais do negócio.
Esta reflexão tornou-se particularmente evidente para mim através da experiência que tenho vivido no My Coplace.
Recebo profissionais que procuram um espaço para desenvolver a sua atividade. Muitos estão a iniciar o seu percurso independente, outros já têm uma atividade estabelecida, mas procuram melhores condições para receber os seus clientes.
Quando conhecem os gabinetes, reconhecem a qualidade das instalações, o conforto e as condições de trabalho.
Mas, por vezes, surge uma objeção curiosa:
«Gosto muito do espaço, mas preferia ter um gabinete só para mim.»
E quando procuro compreender a razão, a resposta é frequentemente semelhante:
«Gosto de ter as minhas coisas no meu espaço.»
«Não queria andar sempre a transportar os meus objetos.»
«Prefiro saber que aquele gabinete é só meu.»
Compreendo perfeitamente este sentimento.
Mas há uma pergunta que considero essencial:
Estamos a escolher aquilo de que o nosso negócio precisa ou aquilo que emocionalmente nos faz sentir mais seguros?
Ter um gabinete não é o mesmo que precisar dele todos os dias
Imaginemos um terapeuta, psicólogo, coach ou outro profissional independente que realiza atendimentos presenciais durante dois ou três dias por semana.
Será que precisa realmente de suportar o custo de um gabinete exclusivo durante trinta dias por mês?
Ou precisa, sobretudo, de um espaço profissional, confortável, reservado e devidamente equipado nos dias em que recebe os seus clientes?
São necessidades muito diferentes.
No modelo tradicional, arrendar um gabinete implica frequentemente assumir uma despesa mensal fixa, independentemente da utilização efetiva.
A renda vence-se mesmo quando não há consultas.
A eletricidade, a internet, a limpeza e outras despesas continuam a existir, mesmo quando o espaço permanece vazio.
No coworking, a lógica é diferente.
Em vez de pagar pela disponibilidade permanente de um espaço, o profissional pode pagar essencialmente pela utilização de que necessita.
E quando os gabinetes já estão equipados com mobiliário, climatização, internet e condições adequadas ao exercício profissional, a necessidade de investimento adicional pode ser significativamente reduzida.
Naturalmente, existem objetos e materiais específicos que cada profissional poderá precisar de transportar.
Mas será que esse pequeno incómodo justifica assumir uma estrutura de custos muito superior?
Esta é a questão que merece ser analisada.
O custo da posse e o valor da utilização
Durante muitos anos, possuir foi associado a estabilidade, segurança e até sucesso.
Ter um escritório próprio, instalações exclusivas ou uma estrutura física permanente era, frequentemente, interpretado como um sinal de crescimento profissional.
Mas os modelos de negócio evoluíram.
Hoje, em muitas atividades, a flexibilidade pode representar uma vantagem competitiva muito maior do que a posse.
O que importa não é necessariamente aquilo que temos.
É aquilo que conseguimos fazer com os recursos de que dispomos.
Pensemos num exemplo meramente ilustrativo.
Um profissional paga 400 euros mensais por um gabinete exclusivo, mas utiliza-o apenas oito dias por mês.
Na prática, está a suportar um custo de 50 euros por dia de utilização, antes de considerar outras despesas que possam existir.
Se pudesse utilizar um espaço igualmente adequado, pagando apenas os períodos de que necessita, poderia eventualmente reduzir os seus custos e libertar recursos para investir noutras áreas do negócio.
Marketing.
Formação.
Aquisição de clientes.
Equipamentos especializados.
Desenvolvimento de novos serviços.
Ou, simplesmente, melhorar a sua margem de rentabilidade.
A questão não é saber se 400 euros é muito ou pouco.
A questão é perceber se esse investimento está a gerar valor proporcional ao custo que representa.
A armadilha silenciosa dos custos fixos
Uma das aprendizagens mais importantes que retirei dos meus anos de gestão é que a sustentabilidade de um negócio depende, em grande medida, da capacidade de ajustar a sua estrutura de custos à realidade da atividade.
Os custos fixos têm uma característica particularmente exigente: continuam a existir mesmo quando a faturação diminui.
Para um profissional independente, sobretudo numa fase inicial ou de crescimento, esta realidade pode representar uma pressão financeira significativa.
Quanto maior for a estrutura fixa, maior será o volume de faturação necessário para atingir o ponto de equilíbrio.
E quanto maior for essa pressão, menor poderá ser a liberdade para tomar decisões, experimentar novas abordagens ou atravessar períodos de menor procura.
Por isso, considero fundamental distinguir duas realidades:
Ter uma estrutura que transmite segurança não significa necessariamente ter um negócio financeiramente seguro.
Por vezes, acontece precisamente o contrário.
A estrutura que nos proporciona conforto emocional é a mesma que limita a nossa flexibilidade financeira.
Mas será que ter um espaço exclusivo é uma má decisão?
Não.
E esta distinção é importante.
Existem profissionais cuja atividade justifica plenamente a utilização de um gabinete exclusivo.
A frequência dos atendimentos, a necessidade de equipamentos específicos, a logística dos materiais, a continuidade da utilização ou determinadas exigências operacionais podem tornar essa opção mais eficiente.
O erro não está em querer um espaço próprio.
O erro está em decidir sem avaliar se essa exclusividade representa uma necessidade real ou apenas uma preferência emocional.
Uma boa decisão de gestão não elimina as emoções.
Reconhece-as, mas não permite que substituam a análise.
Antes de assumir um compromisso mensal, qualquer profissional deveria conseguir responder a algumas perguntas fundamentais:
Quantos dias e horas vou realmente utilizar este espaço?
Quanto me custa cada hora efetiva de utilização?
Que custos adicionais estou a assumir?
Que vantagens concretas obtenho com a exclusividade?
O que poderia fazer com os recursos financeiros que libertaria?
Esta decisão responde às necessidades atuais do meu negócio ou a uma imagem idealizada daquilo que gostaria de ter?
Estas perguntas podem parecer simples.
Mas as respostas podem mudar completamente a forma como olhamos para os nossos investimentos.
Do sentimento de posse à inteligência estratégica
Vivemos numa época em que muitos modelos tradicionais estão a ser questionados.
Já não precisamos necessariamente de possuir todos os recursos que utilizamos.
Precisamos de lhes ter acesso quando acrescentam valor.
Esta mudança exige mais do que uma alteração na forma de trabalhar.
Exige uma mudança de mentalidade.
Significa deixar de associar automaticamente a posse ao sucesso.
Significa compreender que uma estrutura mais leve não representa necessariamente um negócio mais pequeno ou menos profissional.
E significa reconhecer que a liberdade financeira também se constrói através daquilo que escolhemos não possuir.
O coworking insere-se precisamente nesta lógica.
Não se trata apenas de partilhar instalações.
Trata-se de um modelo que permite transformar determinados custos fixos em custos mais ajustados à utilização, beneficiando de infraestruturas e serviços sem necessidade de suportar individualmente toda a estrutura.
Para muitos profissionais, esta pode ser uma forma mais inteligente de iniciar, consolidar ou desenvolver uma atividade.
A verdadeira questão não é o que é meu. É o que faz sentido para mim.
No My Coplace, procuramos disponibilizar diferentes modalidades de utilização porque compreendemos que os profissionais têm necessidades distintas.
Há quem precise de um gabinete exclusivo.
Há quem necessite de um espaço apenas algumas horas por semana.
E há quem procure flexibilidade para acompanhar a evolução da sua carteira de clientes.
Nenhuma destas opções é, por si só, melhor do que as restantes.
A escolha mais acertada é aquela que consegue equilibrar necessidades profissionais, conforto, qualidade do serviço e sustentabilidade financeira.
É precisamente aqui que considero que devemos colocar o foco.
Não naquilo que possuímos.
Mas naquilo que efetivamente precisamos para criar valor.
Porque um gabinete pode ser nosso durante trinta dias e estar vazio durante vinte.
E um espaço que utilizamos apenas quando precisamos pode proporcionar-nos exatamente as mesmas condições profissionais, com uma estrutura financeira mais eficiente.
No final, o que determina o sucesso de uma atividade não é o nome que está na porta de um gabinete.
É a qualidade do trabalho, a confiança dos clientes, a capacidade de gerar valor e a sustentabilidade do negócio.
Talvez esteja na altura de fazermos uma pergunta diferente.
Em vez de perguntarmos:
«O que preciso de ter para me sentir um profissional de sucesso?»
Talvez devêssemos perguntar:
«De que preciso realmente para construir um negócio sustentável, rentável e com liberdade para crescer?»
Porque, por vezes, a decisão mais inteligente não é ter mais.
É precisar de menos.
Se está nesta fase de decisão, pode também interessar-lhe: Consultório próprio ou coworking terapêutico: como reconhecer o que realmente precisas nesta fase da tua prática.
Isabel da Fonseca
CEO e Empreendedora | 35 anos de experiência em Gestão, Liderança e Desenvolvimento de Negócios
Fundadora do My Coplace — Coworking & Eventos
Uma reflexão sobre empreendedorismo, comportamento humano e a importância de tomar decisões que conciliem as nossas necessidades emocionais com a racionalidade económica.